Maryanne Mattos, Colunista da Coluna da Mulher

Pensei muito no que escrever hoje, domingo de Páscoa. Dia de reflexão, momento no qual paramos e pensamos em todos os ensinamentos de Jesus que, em uma época que nem sequer havia meios de comunicação em massa, até hoje tem o poder de entrar na casa e na vida das pessoas no mundo inteiro espalhando mensagens de amor e paz. Independente de sua religião ou crença, nos conforta o sentimento de imaginar que não estamos sozinhos; que nada é por acaso nesta vida; que cada um de nós carrega uma cruz proporcional à sua força. Assim como Jesus teve ajuda para carregar sua cruz até o calvário, tiveram pessoas que sentiram compaixão e acompanharam Ele até o último momento, rezaram para que não sofresse, mesmo sabendo que seria crucificado, pois acreditavam que não era justo o que estava acontecendo. Hoje temos inúmeras situações de pessoas que carregam uma cruz, um peso injusto, e também precisam de ajuda.

Hoje vou me dirigir com todo respeito, amor e compaixão a todas as mulheres que são vítimas de violência doméstica: mulheres que sofrem todo tipo de humilhação, de violência psicológica, moral, física e sexual. Coloque-se neste momento no lugar dessas mulheres que não conseguem mais ter voz para suplicar por ajuda; por um olhar carinhoso; por um abraço sem julgamento; por um colo e uma palavra de conforto dizendo que existem pessoas que querem ajudá-la e tirá-la dessa situação; que ela merece ser feliz, amada, sonhar e viver. Elas merecem VIVER!

Triste o assunto para este dia? Sim, mas, assim como todo o sofrimento de Jesus, que nos comove e nos faz refletir sobre várias coisas nesta vida, ainda temos pessoas por perto sofrendo. Às vezes pessoas da família, da vizinhança, do trabalho… Em todo lugar que comentamos sobre este assunto, ouvimos relatos próximos de mulheres que sofreram algum tipo de violência na sua história de vida.

Se formos pensar exatamente neste ano em que estamos vivendo recolhidos em nossas casas, saindo apenas em extrema necessidade ou para trabalhar, perceberemos que quem está de quarentena ouviu (e fala) todos os dias: “fique em casa, para o seu bem; para sua saúde; para sua SEGURANÇA. Se puder, fique em casa!”. Então, para a maioria das pessoas, manter-se em casa é sinal de segurança em meio à pandemia do coronavírus, mas não para as mulheres vítimas de violência. Para elas, essa situação é sinal de insegurança e muito medo. Elas são violentadas no ambiente em que vivem e agora neste período ainda passam os dias com o agressor que, em 80% dos casos, é o próprio parceiro.

Desde que as pessoas começaram a passar mais tempo em casa para prevenir a infecção por coronavírus, mais mulheres estão noticiando casos de violência que sofreram ou presenciaram. No Brasil, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou um aumento de 9% das denúncias de violência contra as mulheres durante a quarentena. No Rio de Janeiro, por exemplo, os casos de violência doméstica cresceram 50% durante o confinamento. Já aqui em Santa Catarina, a Polícia Civil intensificou a rede de proteção e os canais de denúncia para evitar esse índice, mas, infelizmente, já tivemos aqui na Capital registro de feminicídio desde que começou a quarentena.

É responsabilidade de todos nós denunciarmos e ajudarmos a combater esse crime. Este momento de compaixão e renascimento na Páscoa também nos incentiva a pensar no próximo e a dar oportunidade para essas mulheres vítimas de violência renascerem e redescobrirem novos caminhos. Mas elas só conseguem sair desta vida com ajuda. E essa ajuda somos todos nós.

Se você desconfiar de algum comportamento agressivo de seus vizinhos, não hesite, ligue 100, 181, 153 ou 190 e faça a denúncia, anônima e gratuita, imediatamente. Vamos denunciar, apoiar e, principalmente, não julgar! O nosso lar deve ser seguro não somente contra o Covid 19, mas também para mulheres, crianças e idosos. Mais do que acabar com a pandemia desse vírus invisível, precisamos pôr fim a essa outra pandemia, que afeta diariamente muitas mulheres no mundo todo e, em muitos casos, é também silenciosa e invisível para aqueles que convivem no mesmo meio que a vítima e o agressor.

Seja você a pessoa que vai ajudar a tirar o peso dessa cruz; a pessoa que vai enxugar as lágrimas e estender a mão para mostrar um caminho sem dor, sem humilhação e repleto de amor e oportunidades. Seja a voz e os olhos dessas mulheres, pois muitas já não conseguem gritar e nem enxergar uma saída. Pense nisso! Nesta situação, a segurança também depende de você! Então, hoje com todo respeito e amor que tenho por Jesus, peço licença para orar e pedir proteção para as Marias, que representam aqui todas as mulheres que merecem viver e não sobreviver.