Rodrigo Reis, Colunista

Em seu mais novo livro, o filósofo esloveno Slavoj Zizek no traz a história abaixo:
O conde Léon d´Algout conta no filme Ninotchka (1939) de Ernst Lubitsch “Garçom, um café sem creme, por favor. Perdão senhor, hoje não temos creme, só leite. Posso lhe oferecer um café sem leite?”

De forma geral, o café é o mesmo, o que podemos fazer é trocar o café sem creme por café sem leite, acrescentar a negação de uma negação do não crível, do não factual, afirmação do que não é possível ocorrer.
O que percebemos na clínica psicanalítica em tempos de pandemia, são pessoas que amavam ficar em casa, contudo, em virtude da obrigatoriedade de ter que ficar em casa estão adoecendo. Estão no lugar onde sempre gostaram, no conforto de suas casas, tratava-se de um isolamento “sem leite”, agora resta apenas o café sem nada, não há nenhuma negativa implícita, existe apenas o absoluto e a completude, não há nada mais angustiante.
Em Além do Princípio do prazer, Freud relata “soldados que haviam sido feridos na guerra conseguiam elaborar suas experiências traumáticas melhor do que aqueles que voltavam ilesos” – estes últimos tendiam a experimentar sonhos repetidos, que reatualizavam as fantasias e imagens violentas da guerra e apresentavam marcha atávica, comprometida e outros sintomas incapacitantes.
Ser atravessado pelo trauma de maneira física ou objetiva no corpo denota uma espécie de alívio subjetivo singular na luta contra o intangível, enquanto, que vivenciar algo complexo como a pandemia apenas na subjetividade pode ser bem mais assustador do que a doença em si. A invisibilidade do intangível e sua força fantasmática pode ser início de sério sofrimento psíquico se não for escutado devidamente.
Os efeitos afetivos de certos traumas psíquicos, e a pandemia teria o poder de atualizar essas questões, gerariam recalques no inconsciente que diretamente abalariam a confiança em si mesmo e, em alguns casos ocasionando uma regressão narcísica e toda possibilidade de uma repetição atualizada do trauma geraria uma série de produções de angústia.
Daí podemos compreender o sofrimento psíquico que abala a sociedade contemporânea, a pandemia trouxe mais complexidades para o laço social. Talvez as neuroses atuais a que Freud se referia em sua época, se atualizam mais ainda e o discurso hegemônico neoliberal pretende fazer uso desses dispositivos para operar suas narrativas de controle pulsional, ocasionando um círculo vicioso de amplo sofrimento psíquico e desigualdade social.
A solução como psicanalista tenho sempre dito, é pela via da palavra, reconhecer a falta, reconhecer a urgência do real e o quanto nada podemos fazer por isso, de nossas escolhas e singularidades, cabe apenas falar, ressignificar, resimbolizar, dar nome aos bois, se implicar na singularidade e no papel de cada um no laço social.

Autor: Rodrigo Reis – Psicanalista, escritor e criador do Canal Cavaleiro das Letras