O termo Transtornos Graves e Persistentes tem sido adotado para uma gama extensa e heterogênea de pacientes com características e necessidades, por vezes, muito diferentes. É uma definição que “associa a duração dos problemas, o grau de sofrimento emocional, o nível de incapacidade que interfere nas relações interpessoais e nas competências sociais e o diagnóstico psiquiátrico” (RIBEIRO, 2003).

Grande parte deste grupo é composto pelos transtornos psicóticos. Em geral, o conjunto de transtornos psicóticos representa um drama pessoal em potencial no curso de vida de um indivíduo. Este grupo não inclui apenas a esquizofrenia e o transtorno esquizoafetivo, mas também as psicoses afetivas e atípicas e acarreta consequências de longo alcance em vários âmbitos da vida destes indivíduos (OMS, 2004b).

As psicoses são desencadeadas principalmente no final da adolescência e início da vida adulta (KAPLAN, SADOCK & GREBB, 1994 apud ABP, 2006). A esquizofrenia é a principal condição designada como Transtorno Grave e Persistente, não só por ter a maior prevalência entre os distúrbios graves em Saúde Mental (cerca de aproximadamente 1% da população sofre deste transtorno), como também por seu caráter estigmatizante, seu curso longo e persistente, bem como pelo grau de sofrimento que provoca justificando, desta forma, a atenção dada a esta linha de cuidado nestas Diretrizes.

Dentro de um estudo sobre a carga global das doenças de 2000, a esquizofrenia foi considerada como responsável por 2,8% dos anos perdidos até a morte (YLD) e por 1,1 anos de desabilitação ajustados por ano de vida DALYs1 (Murray et al., 2001 apud WHO, 2004b). Além dos intensos custos pessoais e sociais, existem ainda custos econômicos significativos associados à esquizofrenia que, apesar da baixa incidência, apresenta alta prevalência.

 

Para que a atenção em saúde aos portadores de transtornos mentais graves e persistentes seja eficiente, o sistema de saúde deve contar com uma rede articulada, adotar uma abordagem psicossocial, realizar busca ativa dos pacientes, buscar o apoio e a parceria com os familiares. Além disso, é essencial contar com equipes multidisciplinares compostas por profissionais de saúde de várias formações, abandonando antigos paradigmas que têm se mostrado ineficazes e pouco resolutivos ao longo do tempo, como a abordagem estritamente médica e psicofarmacológica, centrada na hospitalização.

Segundo o Ministério da Saúde, 3% da população geral sofre com transtornos mentais severos e persistentes; mais de 6% da população apresenta transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e outras drogas e 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual (BRASIL, 2008). Dados fornecidos por estudo realizado pela Universidade de Harvard indicam que, das dez doenças mais incapacitantes em todo o mundo, cinco são de origem psiquiátrica: depressão, transtorno afetivo bipolar, alcoolismo, esquizofrenia e transtorno obsessivo-compulsivo (MURRAY E LOPEZ, 1996 apud BRASIL, 2003).

Apesar de responsáveis diretas por somente 1,4% de todas as mortes, as condições neurológicas e psiquiátricas foram responsáveis por 28% de todos os anos vividos com alguma desabilitação para a vida. Com pequenas variações, sem significância epidemiológica, a realidade descrita encontra equivalência no Brasil (BRASIL, 2003). Além disso, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2001 apud BRASIL, 2003), cerca de 10% das populações dos centros urbanos de todo o mundo consomem abusivamente substâncias psicoativas, independentemente da idade, sexo, nível de instrução e poder aquisitivo, sendo o mesmo observado no território brasileiro.