Isabela Toledo Colunista da Coluna de Educação

Coordenação motora é a capacidade de movimentação, de forma consciente ou não, dos nossos músculos trazendo um domínio do corpo. É através de uma perfeita coordenação motora que conseguimos andar, correr, pular, escrever, pegar coisas e diversos outros movimentos. Mas, para realizar esses movimentos articulados e de forma intencional, precisamos mobilizar os sistemas muscular, esquelético, sensorial e nervoso. O funcionamento é complexo e as habilidades motoras podem ser desenvolvidas, trabalhadas e aprimoradas.

A escola se preocupa em desenvolver as habilidades psicomotoras das crianças em cada uma de suas áreas: coordenação motora grossa e fina, esquema corporal, lateralidade, estruturação espacial, estruturação temporal, discriminação visual e auditiva e grafismo.

Coordenação motora grossa diz respeito aos grandes movimentos corporais como correr, pular, praticar esportes, arremessar, rolar e outros movimentos que mobilizam os grandes membros e músculos.

A coordenação motora fina são os movimentos chamados de refinados, como pintar, escrever, realizar a pinça (movimento delicado dos dedos para pegar pequenos objetos). Essa área psicomotora está diretamente relacionada à construção das habilidades de escrita e grafismo.

O esquema corporal se refere à consciência do próprio corpo. À medida que vai crescendo, a criança vai descobrindo todas as partes do seu corpo e o que pode fazer com cada uma delas. Vai criando consciência do espaço que ocupa e como se comportar nele. Essa consciência é perceptível até mesmo nos desenhos que a criança faz, que passam por fases que denunciam suas percepções. Desenhos com a cabeça e apenas os braços e pernas, sem o tronco, mostram uma forma de perceber o corpo e que partes são mais significativas para a criança. As partes que ela já conhece e sabe como usar aparecem em seus desenhos. Com o passar do tempo, os desenhos vão ficando mais detalhados, com pescoço, nariz, boca, olhos e cada vez mais partes são percebidas e representadas. É maravilhoso acompanhar essa evolução!

A lateralidade diz respeito à percepção dos dois lados que o corpo tem. E a criança demostra preferência por utilizar mais um dos lados. Geralmente é o lado que ela demonstra mais habilidade, mais agilidade e força. É importante estimular os dois lados, mas sempre haverá uma preferência que é explicitada em movimentos espontâneos e isso mostra se a criança é destra ou canhota.

A estruturação espacial é capacidade de perceber o espaço que ocupa nos ambientes e os limites de sua movimentação. Já observou que crianças muito novas, entram debaixo das mesas, querem se levantar e acabam batendo a cabeça? Isso acontece porque elas ainda não têm a percepção dos limites que seu corpo tem para ocupar ambientes e como se comportar em cada um deles.

Já a estruturação temporal é a habilidade de perceber o tempo com relação às suas ações. Movimentos lentos e rápidos são bons exemplos. Conhecer seu ritmo, saber se está no começo, no meio ou fim, compreender o tempo passado, presente e futuro são habilidades essenciais.

Essas habilidades são constantemente estimuladas na escola através de várias atividades. Um exemplo é a rodinha diária que as professoras fazem no início do dia, conversando sobre as atividades que as crianças realizaram ao acordar, o que comeram no almoço, o que vão comer no lanche.

Também conversam sobre a rotina do dia e registram isso de forma concreta através de desenhos que geralmente são colocados na parede formando uma linha do tempo através da qual a criança vai percebendo o passar das horas e as sequências do que está planejado para aquele dia. Esses são alguns exemplos de como trabalhar a estruturação temporal.

Para mobilizar todas essas áreas psicomotoras, somos influenciados pelas nossas percepções auditivas e visuais. Podemos pular para a direita, por exemplo, se estivermos vendo um pneu se deslocando em nossa direção e queremos evitar um acidente. Os barulhos e sons que ouvimos influenciam os movimentos que decidimos fazer no sentido de nos aproximar ou afastar. Podemos também calcular a distância aproximada das pessoas e de objetos se os sons que eles emitem forem baixos, altos, demonstrando distanciamento ou proximidade.

A aprendizagem está diretamente relacionada ao desenvolvimento das áreas psicomotoras e qualquer alteração ou mal funcionamento pode indicar um problema ou um ponto de alerta para pais e educadores.

A falta de estimulação de qualquer uma dessas áreas acarretará um desenvolvimento mais lento das habilidades da criança e consequentemente pode afetar a aprendizagem e a alfabetização.

As crianças já estão em casa por seis meses seguidos, devido à pandemia e ao distanciamento social. Além de não frequentarem as escolas, que permanecem fechadas, e onde encontrariam um trabalho sistematizado, intencional e regular de estimulação de sua consciência corporal e motricidade, também não estão frequentando parques, praças, clubes e nem mesmo as áreas de lazer dos condomínios.

Como a grande parte dos pais retirou seus filhos das escolas de Educação Infantil, eles estão sem acompanhamento pedagógico, o que deixa seu desenvolvimento mais lento com relação à estruturação espaço-temporal, lateralidade, grafismo, esquema corporal, para não citar outras áreas que a pedagogia estimula nas crianças, pois nosso enfoque aqui é o desenvolvimento da coordenação motora.

Então, se perguntarem:

– A coordenação motora vai bem?

A resposta, inevitavelmente será:

– Não.

Quando as crianças voltarem a frequentar as escolas, professores e pais devem saber os desafios que precisarão enfrentar e planejar um trabalho que resgate tudo o que ficou perdido. Foco e parceria serão essenciais.

Que falta que a escola faz!