Isabela Toledo Colunista da Coluna de Educação

É grande a oferta de cursos e livros sobre metodologias ativas e práticas disruptivas na educação. É fácil encontrar professores discutindo o assunto, contando experiências e trocando informações. O tema é tão discutido que gera desconforto: em alguns por não entenderem muito do assunto e se sentirem desatualizados; em outros por rejeitarem as práticas ditas transformadoras e que prometem o protagonismo do estudante; também existem aqueles que pensam que o professor será desvalorizado nessa nova proposta, perdendo seu papel fundamental.

Realmente, abraçar novas técnicas com o mesmo pensamento antigo, sem mudar concepções ou entender o que está acontecendo pode ser um desastre. Sugiro que antes de atacar ou defender, estude e compreenda: que movimento é esse que tem acontecido na educação?

“Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.”

Leo Tolstoy

O pensamento ágil chegou nas escolas. E a aprendizagem pode ser baseada em ágil. “A educação é um terreno essencial e fértil para expandir práticas ágeis… Professores do ensino fundamental, médio e superior em todo o mundo estão começando a usar práticas ágeis para criar uma cultura de aprendizagem. As técnicas ágeis são usadas para estabelecer o foco na classificação de prioridades concorrentes. A interação face a face, o aprendizado significativo, as equipes autogerenciáveis e o aprendizado incremental e/ou iterativo que exploram a imaginação são princípios ágeis que podem mudar a mentalidade na sala de aula e fazer avançar os objetivos educacionais.” (Guia Ágil, Agile Alliance/PMI)

A abordagem ágil é baseada em quatro princípios que foram elaborados por um grupo de 17 profissionais (desenvolvedores) que se reuniram para redefinir o modelo existente de elaboração de projetos. Eles conseguiram traduzir o movimento transformador que estava ocorrendo em sua área de atuação. Mas a abordagem ágil hoje já está presente nos mais variados setores sociais.

Da mesma forma, uma transformação vem ocorrendo na educação. Não é um movimento recente, mas que tem se tornado acelerado devido aos intensos avanços tecnológicos e principalmente com a popularização da internet. Esse movimento vai modificando as formas de pensar e de se organizar e, consequentemente, introduz novas práticas.

Qual é o movimento que tem acontecido na educação e que tem provocado transformações?

Listei oito movimentos que considero importantes. Ao escrever sobre eles, vou classificar algumas práticas como “ontem” e outras como “hoje”, mas apenas como um benefício didático, pois movimento sugere idas e vindas e não uma passagem estática, onde você se fixa em lugar ou em outro.

1.Aprendizagem disruptiva e boas ideias que promovem coisas incríveis. Hoje a aprendizagem não acontece só na sala de aula, mas em todo lugar.

Ontem: estamos saindo de uma “crença” de que o aluno (a própria nomenclatura diz muito: aluno = desprovido de luz. Por isso prefiro usar a palavra estudante) vazio e passivo, que vai à escola para aprender com um professor que detém o conhecimento. Esse professor existe para ensinar ao aluno o que este não sabe e não tem como saber, a não ser através dele.

Hoje: o estudante é ativo e já traz o conhecimento de casa. Ele chega à escola com grande bagagem. O professor agora já tem uma aula mais rica e produtiva pois pode aproveitar tempo antes gasto com exposição de conteúdo para tirar dúvidas, provocar questionamentos e aprender com sua classe (que tem a possibilidade, inclusive, de saber mais que ele).

2. Um currículo focado no desenvolvimento de habilidades e competências.

Ontem: até pouco tempo atrás, os currículos das escolas eram baseados em conteúdos. A aprendizagem ocorria através da transmissão de conhecimento, memorização e repetição. O acesso ao conhecimento era possível através do professor e de enciclopédias. O currículo era fixo.

Hoje: o currículo é baseado em habilidades e competências. A Nova BNCC veio legitimar isso. O acesso ao conhecimento se dá de formas variadas: através do professor, da internet, das experiências ampliadas. O currículo está em constante movimento.

3. Aulas que levam o aluno a construir. Aprendizagem “mão na massa”. Movimento maker.

Ontem: apenas aulas expositivas e um aluno mais passivo.

Hoje: as aulas são muito mais interativas, o trabalho em grupo é mais valorizado e explorado pelos professores. Os laboratórios maker oferecem possibilidade de trabalhar a criatividade e solução de problemas de forma experimental, o que é muito estimulante. As metodologias ativas promovem um outro modelo de aula que conta com a participação de todos.

4. Tecnologia na sala de aula como ferramenta essencial (cultura digital).

Ontem: as ferramentas tecnológicas eram limitadas. Poucos tinham acesso.

Hoje: o contexto é desafiador. Em 2020 serão 7 bilhões de smartphones; mais de 250 bilhões de downloads de apps; 94% dos alunos da geração Z usam o youtube ao menos uma vez ao dia (análise do Mckinsey Global Institute).

5. Um novo perfil de aluno.

Ontem: o aluno era definido. Já sabíamos o que esperar dele. Só tinha acesso a livros na escola.

Hoje: temos um aluno indefinido, hiperconectado, autodidata, analítico, comunicaholic.

6. Preocupação com o desenvolvimento integral do aluno: cognitivo, físico, emocional e espiritual.

Ontem: a escola ensina a ler, escrever e fazer contas. Seu objetivo era unicamente acadêmico.

Hoje: a escola educa de maneira integral. Por mais que tenha uma função primordial acadêmica, do ensino formal, não pode deixar de lado aspectos da saúde física, emocional e até mesmo espiritual. As habilidades socioemocionais são tema recorrente de cursos e debates que enfatizam a sua importância. A BNCC traz a necessidade de ensiná-las na escola. Existe uma preocupação com a questão espiritual, religiosa e de crenças pessoais. A BNCC também traz o ensino religioso como fundamental para a educação básica.

7. Inclusão.

Ontem: o aluno com necessidades especiais é rejeitado pela escola. Acredita-se que a solução para ele encontra-se apenas na clínica médica. A escola não pode ajudar (e não quer).

Hoje: as escolas estão aprendendo a lidar com diversos tipos de alunos especiais. Há um crescimento muito grande dos cursos de pós-graduação sobre a inclusão. Os professores tem maior interesse na psicopedagogia. O número de autistas cresce a cada ano: atualmente para cada 160 nascimentos (população mundial) , um será autista, mas estima-se que em poucos anos serão, para cada 20 nascimentos, um autista (previsão da OMS). Isso faz com que as escolas sejam obrigadas a se prepararem para receber essas crianças. (https://www.paho.org/bra/index.php?Itemid=1098)

8. Valorização de competências, habilidades e atitudes mais do que testes e provas.

Ontem: a única forma de avaliar o aprendizado do aluno é através de uma prova escrita.

Hoje: as formas de avaliação estão mudando e várias outras modalidades já são praticadas nas escolas. No ensino superior esse movimento é mais visível do que na educação básica e muitos cursos de pós-graduação não tem mais avaliação escrita.

Desse movimento é possível extrair valores e princípios e então compreender as práticas e até mesmo criar novas práticas. Foi isso que o grupo de 17 desenvolvedores fez e que resultou no Manifesto Ágil – documento que esclarece a abordagem ágil. Se desejar conhecer o documento, clique no link.

Também na educação estamos descobrindo maneiras melhores de desenvolver a aprendizagem dos nossos estudantes. E afirmo que, mesmo que haja valor nas velhas práticas, estamos compreendendo que o novo pode ser mais eficaz.

“Ágil é uma mentalidade definida por valores, orientada por princípios e manifestada por meio de muitas práticas diferentes. Os praticantes ágeis selecionam as práticas com base em suas necessidades.” (Guia Ágil)

Poderíamos nos arriscar a escrever alguns valores da mentalidade ágil da educação (seguindo como sugestão e/ou exemplo os valores do Manifesto Ágil). Tive a rica experiência de discutir essas questões com alguns colegas da pós-graduação em Agile Coach, da Puc Minas e nossos insights foram muito interessantes:

Indivíduos e interações mais do que processos e ferramentas.

Conhecimentos, habilidades, atitudes e estímulos mais do que testes e provas escritas.

Aprendizagem colaborativa e de experimentações mais do que métodos verticalizados.

Acolhimento à diversidade e inclusão mais do que classificação de indivíduos.

Compartilhar conhecimentos mais do que observar cronogramas fixos.

Responder às mudanças mais do que seguir um plano.

Não é por acaso que defendemos a aplicação de metodologias ativas de ensino nas salas de aula. Queremos fazer com que o aluno melhore cada vez mais sua experiência de aprendizagem e tenha sucesso em sua vida de maneira integral.

#manifestoágil #metodologiasativas #metodosageis #escolainovadora #mindset

Este não é um artigo científico, por isso tenho a liberdade de citar as fontes de maneira informal. Mas o texto é de minha autoria e, caso queira utilizá-lo, peço a gentileza de citar meu nome e onde o encontrou.

Obrigada!