Os pesquisadores econômicos do CSIS (Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em inglês) selecionaram alguns assuntos que farão parte das discussões sobre política e economia globais em 2021.

Entre eles, o endividamento, com possível default de países pobres, e a integração das políticas doméstica e internacional no novo governo de Joe Biden nos EUA, que começa no próximo dia 20.

Veja a seguir no que ficar de olho neste ano que acaba de começar.

Recuperação global e endividamento

Em 2020, a pandemia do novo coronavírus evidenciou fragilidades nas economias e sociedades de todos os portes, das mais ricas às mais pobres. O alto endividamento é uma delas, e a solução nos primeiros meses do ano foi a de suspender os pagamentos para que essas nações pudessem usar os recursos remanescentes no socorro à população mais vulnerável.

O G-20 liderou a principal iniciativa do tipo, a DSSI (Iniciativa de suspensão do serviço da dívida, em inglês), que contou com a adesão dos principais credores, como EUA, Rússia, Índia e China. Beijing é hoje um dos maiores emprestadores do mundo, com projetos sobretudo em países de baixa renda na Ásia e na África – mas também em setores estratégicos, como energia e transporte, na América Latina.

Mas, para os especialistas do CSIS, os esforços terão de ser maiores no ano que se inicia. Isso porque os governos terão de, além de lidar com trajetórias em muitos casos descontroladas de endividamento, continuar buscando recursos para custear sistemas de saúde e auxiliando sociedade e economia na recuperação.

No novo ano, sairão na frente países que conseguirem estruturar mecanismos básicos de transparência, negociação com credores e aumento da poupança nacional para enfrentar a crise causada pela pandemia.

A China e sua Iniciativa do Cinturão e Rota

Para renegociar suas dívidas sobretudo dentro da Iniciativa do Cinturão e Rota, pacote global de investimentos da China no exterior, os emprestadores terão de lidar com diversos atores: bancos de desenvolvimento, empresas privadas e o Eximbank, banco estatal de exportações e importações, por exemplo.

Na ausência de novos mecanismos de coordenação e transparência por parte da China, hoje o maior credor bilateral do mundo, os analistas do CSIS esperam um aumento das renegociações de dívida ao longo de 2021.

Nesse cenário, será importante observar o que os credores chineses pedirão dos emprestadores. Antes da crise e da pandemia, a China já exigia em muitos casos colaterais físicos em caso de default – ou seja, a possibilidade de confisco em caso de calote.

Mas, para os analistas do think tank, um outro curso de ação é provável. Em vez de tomar ativos, os credores podem exigir a concessão antecipada de recursos naturais dos países devedores, além de contratos futuros ou até mesmo apoio às demandas diplomáticas de Beijing no exterior.

Caso os chineses optem pelo jogo duro e não avancem na concessão de alívio para os devedores, o mundo testemunhará moratórias e novas crises em países emergentes.

Vale observar que Beijing não faz parte do Clube de Paris, consórcio de 22 nações credoras que media conflitos de dívida e serve como um agente algo disciplinador das negociações bilaterais. O Clube tem como observadores o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial.

A relação entre EUA e China

Em 20 de janeiro, o democrata Joe Biden toma posse como presidente dos EUA. Em semelhança à política externa do antecessor Donald Trump, Biden vê a China como um “rival estratégico” de Washington, mas planeja se contrapor a Beijing de forma distinta.

A primeira e mais evidente mudança é a tentativa de retomar parcerias com a Europa, o Reino Unido e outras potências do G-20. O objetivo será forçar a China a participar de questões globais aderindo às regras multilaterais nos campos da política, da economia e da diplomacia.

Internamente, o novo governo planeja aumentar a resiliência econômica dos EUA e tornar o país mais competitivo para disputar mercados com o rival. Não se espera uma evidente separação das duas economias, há muito tempo codependentes do ponto de vista industrial e econômico.

O que devem ser mantidos são o acordo comercial e as tarifas impostas pelo governo Trump. Ainda não está claro se haverá intenção de retomar entendimentos como a TPP (Parceria Transpacífica), negociada durante o governo Obama em sua política de “pivô para a Ásia”.

Também não se sabe se e de que forma Biden pressionará pela adesão chinesa ao modelo de governança internacional vigente. Sem acordo, será difícil exigir dos chineses cooperação em questões sanitárias ou climáticas.

Política para o clima

Biden já colocou a questão climática como o grande desafio dos tempos atuais e como prioridade de seu novo governo. Haverá investimento em tecnologia e infraestrutura verdes e um pacote de estímulo econômico, além de pesquisa e desenvolvimento na área de energia.

O novo presidente também já afirmou que em 2021 reincorporará os EUA ao Acordo de Paris para o clima já nos primeiros dias de mandato, além de pressionar por metas mais ambiciosas de zerar as emissões de carbono entre os participantes.

Os pesquisadores do CSIS apostam que haverá parceiros para fomentar uma política global contra a crise climática. Em 2021, Reino Unido já coloca a questão como prioritária para seu período de um ano na presidência do G-7. A Itália, que liderará o G-20, idem.

Ao menos duas escolhas de Biden para postos de chefia em seu governo refletem essa prioridade. Janet Yellen, economista que assumirá o Departamento do Tesouro, tem longo histórico de defesa de cortes nas emissões.

Já Brian Deese, na liderança do NEC (Conselho Econômico Nacional, em inglês), chefiou a área de investimentos sustentáveis da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo.

A equipe de Biden

Os pesquisadores também apontam a importância da configuração dos órgãos governamentais e dos nomes escolhidos por Biden como importantes para entender o que esperar dos EUA em 2021.

O presidente eleito já sinalizou que pretende “integrar política doméstica e internacional”. Escolheu Susan Rice, com passagens como conselheira de segurança nacional e embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, para comandar o Conselho de Política Doméstica.

Agora, a dúvida seria a respeito da interação de Rice com Deese e os escolhidos como conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, e como líder do Conselho de Consultores Econômicos, Cecilia Rouse. Rouse foi reitora da Escola de Relações Públcias e Internacionais da Universidade de Princeton, e Sullivan foi braço-direito de Hillary Clinton na Secretaria de Estado.

Os analistas do CSIS também colocam como ponto de atenção como o governo integrará a questão econômica na agenda de segurança nacional a partir de 2021.

Uma indicação da política de Biden neste sentido seria a escolha não apenas dos líderes, mas dos vices em postos-chave como a Secretaria de Estado e de Comércio. São eles quem, na prática, implementarão as orientações do governo para questões como a relação com a China e com entidades multilaterais, do G-20 à OMC (Organização Mundial do Comércio).