A chegada de Joe Biden ao poder nos EUA sinalizou uma mudança importante na dinâmica de poder das negociações internacionais para o clima. Em duas semanas de governo, Biden reforçou que a questão climática será uma prioridade em sua política externa, numa corrida contra o tempo (e contra a inércia) para compensar os quatro anos perdidos com Trump. Naturalmente, o retorno dos EUA à arena internacional precipitou o reposicionamento político de diversos países no tabuleiro climático internacional, em especial a China e a União Europeia.

O caso de Pequim é mais complexo, já que os EUA acumularam diversos focos de tensão nos últimos anos com os chineses, tornando o relacionamento bilateral ainda mais difícil. O Climate Home destacou as dificuldades que John Kerry, enviado especial de Biden para o clima, está enfrentando na tentativa de isolar o tópico climático de outros itens críticos da agenda EUA-China, especialmente aqueles relacionados ao comércio e à geopolítica na Ásia-Pacífico. As manifestações recentes do governo de Xi Jinping sinalizam um cenário bem diferente daquele vivido em meados da década passada, quando os dois países firmaram uma parceria política estratégica para dar força às negociações do Acordo de Paris. Agora, as condições políticas para uma colaboração estão mais difíceis.

No meio dos dois gigantes, a UE tem se equilibrado para evitar melindrar o relacionamento com Pequim e Washington. Diferentemente dos norte-americanos, os europeus estão adotando uma abordagem menos confrontacional com os chineses, priorizando a cooperação em itens como energia e infraestrutura. O site POLITICO destacou que até mesmo a polêmica taxa de carbono que a UE quer impor sobre as importações, um tema ácido para os chineses, está sendo suavizada nas conversas bilaterais.

A meta da UE para atingir a neutralidade de suas emissões de gases de efeito estufa até 2050 terá “profundas repercussões geopolíticas” para o bloco, com o potencial de redirecionar toda a política externa europeia para as próximas décadas. De acordo com um estudo divulgado ontem (3/2), o primeiro impacto político expressivo dessa meta será a queda nas importações de petróleo pelos países europeus, que podem desabar em 79% até 2050 na comparação com 2015. Já as importações de gás, um “calcanhar de Aquiles” nas relações entre Europa e Rússia, podem diminuir em 67% nesse mesmo período. Outro ponto é a reação potencial de mercados na Ásia, África e América Latina à imposição da “taxa de carbono” sobre as importações.