As cicatrizes das queimadas monumentais que afligiram o Pantanal no ano passado seguem abertas, com impacto ambiental ainda incomensurável. Nas últimas semanas, centenas de peixes estão sofrendo com falta de oxigênio em rios no Pantanal sul-matogrossense. A explicação para isso está em um fenômeno natural na região que ganhou mais força nesta temporada por causa das queimadas – a “decoada”. Ela acontece depois da chegada das chuvas, quando os rios pantaneiros sobem e as águas avançam sobre áreas de planície que secaram durante a estação seca e que, agora, na estação chuvosa, estão com muita vegetação e matéria orgânica.

“Quando a água da calha dos rios entra na planície, processos de oxidação nesta matéria orgânica deixam as águas com pouco [ou nenhum] oxigênio dissolvido, além de elevar os níveis de concentração de gás carbônico na água”, explicou ao G1 Fernando Carvalho, especialista em ictiologia da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). “Quanto mais matéria orgânica, por exemplo cinzas, mais intensos os processos de decomposição e de alteração das propriedades físico-químicas da água”.

Um levantamento do Instituto do Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul (IMASUL) mostrou que ao menos 50 espécies foram afetadas pela decoada, sendo que a esmagadora maioria dos peixes prejudicados (95%) é de filhotes. Globo Rural e Metrópoles também repercutiram essa notícia.

Um estudo do Cemaden e da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) mostrou que a seca que castigou o Pantanal entre 2019 e 2020 foi a mais grave na região em 50 anos. Os pesquisadores fizeram um raio-X climatológico da seca, analisando os índices de precipitação e nível dos rios. A análise revelou que o nível do rio Paraguai foi o mais baixo desde 1971 e que a região pantaneira recebeu entre 50% e 60% menos chuva do que o normal. O mês de abril de 2020 foi o mais seco desde que as medições começaram, há 120 anos. O artigo foi publicado na revista Frontiers in Water.