HITA DOS SANTOS MELILO, ou simplesmente, dona Hita.“Manezinha” tradicional de nascença e multifuncional por sobrevivência. Roceira, lavadeira, rendeira, benzedeira. Filha, nora, esposa, mãe, avó e, sobretudo,mulher! Natural de Ratones, tradicional da ilha e cultural da vida.

Nasceu em casa, no inicio da década de 1930, em uma época onde era comum o auxilio das parteiras para tal fim (na verdade, inicio. Me perdoem o trocadilho!:)).Morava com os pais e irmã mais velha bem próximo a divisa com a Vargem Pequena,em direção a esse bairro, do lado direito, próximo a atual fazenda mea mea, onde hoje tem uma construção recente de um sobrado de madeira.

Mudou-se ao casar-se para onde mora até os dias de hoje. Desde muito cedo lidava na roça com seu pai. Forte por natureza, resiliente por necessidade, subserviente por obediência. Viviam da agricultura de subsistência. Plantavam cana, arroz, feijão, mandioca, café, banana… criavam patos também. Produziam em engenhos de cana e farinha da região, a própria farinha, o açúcar e a cachaça. Aprendeu, aos 8 anos de idade, a bela arte da renda de bilros. Arte essa que ainda pratica e a distrai. Companheira inseparável e alentadora em época de pandemia e rígidoisolamento.

Por esta habilidade é Figura carimbada e um dos destaques na feira de arte e exposição do bairro, nossa querida e charmosa, RATONARTE. Já moça, aprendeu com sua irmã mais velha a benzer. Uma prática muito peculiar de cuidado e amor ao próximo. O desenvolvimento singelo do dom da cura pela crença e fé. Puro altruísmo. Assim, até hoje, quando solicitada, trata de males como zipra, zipela e cobro. Por essas práticas, 2019 foi um ano mágico de reconhecimento dessa senhora tão simples e genuinamente desapegada a tais honrarias.

Parece-me agora, um preparativo divino e reconfortante ao que se sucederia no ano seguinte, tolhendo-lhe (e ao mundo) a liberdadede ir e vir, misturar-se, confraternizar-se, expor-se. Recebeu homenagens pela sua arte rendeira na própria feira RATONARTE e também na câmara municipal de Florianópolis. Enquanto benzedeira teve a honra de receber mais outras belas homenagens. Foi, entre tantos outros, incluída no livro que retrata e evidencia as mulheres e homens que mantém essa tradição da nossa ilha, denominado “DONA FULANA MORREU ELEVOU CONSIGO TUDO O QUE APRENDEU?” Contos e fotografias de benzedeiras e benzedoresna ilha de Santa Catarina.

Machado, Marta Magda Antunes; Yunes, Virginia Maria. Pela mesma escritora, que desenvolveu carinho e afeto por suas entrevistadas, foram“cantadas” (as benzedeiras) em letra e música no concurso municipal de marchinhas de carnaval já para o ano de 2020, recebendo, junto a sua irmã, o honroso convite de subir ao palco para acompanhar e “coreografar” a apresentação da mesma. Momento memorável e emocionante.

A marchinha em questão foi coroada com o prêmio vencedor em sua categoria. Ainda teve a honra de ser entrevistada e participar do documentário em vídeo “RATONES,VIDAS E LIDAS” que resgata as histórias do bairro narradas por seus personagens. Cativante,emocionante, ilustrador. Conteúdo de importância impar para apresentar nossas origens às gerações mais recentes e reavivar a memória dos mais antigos.

Histórias essas que se fundem com as origens da nossa querida ilha e suas vivências. Mas, dona Hita, embora cercada dessas honrarias, com toda sua lucidez e vivacidade,tem tal qual sua essência hábitos simples. Adora sair, passear, brincar e jogar bingo… isso mesmo, uma de suas maiores paixões, só superada pelo tecer de suas rendas. Porque não dizer, seu único vício! Claro, não dispensa para isso, a participação em inúmeros grupos da terceira idade, quase uma religião para ela. Aí, nesses encontros, ela se realiza, diverte,descontrai, conhece lugares e pessoas, enfim, vive na plenitude.

Depois de décadas de trabalho árduo, inúmeras responsabilidades e desilusões, bem como algumas privações,dificuldades e sofrimentos, encontrou sua liberdade e autonomia (ainda que vigiada de perto pelos filhos…) para aproveitar seus anos na melhor idade, na fase mais avançada da vida, uma dádiva! Assim é nossa artista mais frugal, essa mulher guerreira e alegre que se mantém ativa, produzindo, criando, encantando, divertindo e arrebatando sensações e emoções com uma simplicidade desconcertante, muitas vezes soando alheia aos acontecimentos que a em poderam, dada a naturalidade que encara o turbilhão de situações que a vida continua lhe apresentando no auge dos seus 90 anos.

Creio realmente que ela não tem a completa noção e dimensão de sua importância para nossa cultura e tradição ilha, o que a torna ainda mais especial. É, evidentemente, nosso grande motivo de orgulho, um patrimônio animado, peculiar, genuíno, rico e belo qual ocupleta-nos com sua simplicidade majestosa.Vida ainda mais longa dona Hita! Que assim atinjas o centenário: inteira, íntegra, saudável e puramente, genuína!