“Avaliação Diagnóstica” é um pleonasmo, ou seja, uma informação desnecessária que é acrescentada ao discurso. Alguns vão dizer que a intenção é enfatizar a mensagem. É uma pena que isso seja necessário na Educação. Que triste! Não deveria ser assim.

Todos nós já lemos muitas vezes sobre os tipos de avaliação que podem ocorrer na escola: diagnóstica, formativa e somativa. Mas na verdade uma avaliação tem sempre o objetivo de diagnosticar, o que muda é o que o professor vai fazer com ela. Dessa forma, ele pode usar uma avaliação para definir um percurso de trabalho, retomar (ou não) conteúdos, ou classificar os alunos. Por isso penso que não cabe falar em “modalidades” de avaliação. O correto seria pensar em quantas coisas o professor pode fazer com uma avaliação.

Esse vício de linguagem acabou dificultando professores e escolas no cumprimento das orientações do Conselho Nacional de Educação sobre diagnóstico de aprendizagem. Mais uma vez o tradicionalismo impediu, pelo menos num primeiro momento, a elaboração de um bom plano.

Ouvi muitas pessoas dizendo: “não é possível fazer avaliação diagnóstica no modelo híbrido”, “apenas quando tudo voltar ao normal será possível fazer avaliação diagnóstica” e outros comentários que mostram um pensamento rígido e limitado. Enxergar a avaliação como uma prova escrita, aplicada dentro da escola e com a supervisão do professor é o que faz essas pessoas acreditarem nos limites do novo cenário. É preciso pensar fora da caixa! É preciso ter o foco certo e alterar o “jeito de fazer”.

Se começarmos a pensar que só é possível recuperar a aprendizagem quando todos os alunos estiverem presentes na sala de aula, não estaremos ajudando a transformar a vida das pessoas. É preciso pensar em como fazer isso dentro do cenário real. Empurrar a necessidade para um futuro incerto vai aumentar as dificuldades e defasagens. O pensamento deve ser: “esse é o nosso cenário, o que vamos criar para alcançar os objetivos?”

É um problema complexo, mas nada impede a criação de boas soluções. Que tal reunir a equipe e começar a pensar juntos? Tenho certeza de que inovações poderão aparecer!

Deixo aqui algumas ideias para começar a pensar sobre o assunto. São apenas ideias que podem servir de start para alguém ou fonte de inspiração. Mas o importante é lembrar que TODA AVALIAÇÃO É DIAGNÓSTICA.

  1. Reunir a equipe pedagógica, professores e coordenadores, e fazer um levantamento minucioso das habilidades essenciais que deveriam ser adquiridas em cada turma que a escola possui.
  2. Listar os conteúdos que mais favorecem o desenvolvimento de cada uma dessas habilidades, procurando ser o mais interdisciplinar (ou até mesmo multidisciplinar) possível, para favorecer os estudantes.
  3. A partir desses levantamentos, os professores poderão produzir uma avaliação. Considerando que o objetivo é verificar a aquisição das habilidades essenciais, uma mesma proposta pode contemplar mais de uma disciplina. É muito importante compreender que esse procedimento está alinhado com a BNCC. Se as escolas se concentrarem em listas de conteúdos, será difícil diagnosticar e mais ainda elaborar um plano de recuperação eficaz.
  4. Quanto ao formato da avaliação, podem existir diferentes propostas. A mais tradicional, a prova escrita, por ser de grande familiaridade ao trabalho dos docentes atuais e também dos estudantes. Mas nada impede que aconteçam entrevistas em pequenos grupos; resumos escritos ou gravados em áudios ou vídeos, elaborados a partir de uma excelente pragmática fornecida pelos professores; avaliação em estações de trabalho onde em cada estação seja verificada uma habilidade essencial; enfim, cada escola precisa adequar o que é necessário acontecer à sua realidade cotidiana.
  5. Vale lembrar que os protocolos de segurança precisam ser seguidos e isso afeta as escolhas para essa avaliação. Por isso vale à pena considerar também fazer essa avaliação de maneira online, em pequenos grupos. Isso é possível e já observei escolas agindo assim com sucesso, identificando problemas e já conseguindo resolvê-los.
  6. É muito importante também que o aluno tenha autoconsciência de sua condição acadêmica. Não basta que os professores tenham as informações. O aluno precisa conhecer os dados coletados pois a sua recuperação depende de um trabalho de parceria entre ele e a equipe pedagógica.
  7. Após esses primeiros passos, chegou o momento da elaboração de um plano de estudos individual. Esse plano deve ser personalizado contendo esclarecimentos e atividades para realizar e testar as habilidades. O aluno poderá cumprir esse plano sozinho, em casa.
  8. Essa modalidade de recuperação mantém o aluno estudando sozinho, longe de seus professores. Por isso, seria interessante que a escola criasse espaços para tirar dúvidas e onde o aluno possa fazer perguntas. Na prática, os estudos autônomos continuam fazendo parte da recuperação acadêmica, mas é importante ampliar as possibilidades dos estudos dos alunos. Proponho aqui duas ofertas interessantes: (1) plantões tira dúvidas (organizados conforme necessidade de cada escola e turma); (2) monitorias (para as disciplinas que exigem mais raciocínio, acompanhamento em cálculos e muitos detalhes, como matemática, física, química e biologia).
  9. Vale enfatizar que o ensino parcialmente online e parcialmente presencial acompanhará a rotina da educação básica por tempo indeterminado e por isso também gosto da ideia de gravar pequenos vídeos, com a explicação bem específica, clara, localizada e esclarecedora de conteúdos escolares. Assim, o aluno pode assistir quantas vezes quiser e já resolver muitas de suas dúvidas.

Por fim, as escolas não podem se esquecer de que as emoções afetam diretamente o rendimento escolar. Criar um espaço de apoio emocional e orientativo, para que o estudante persista e não tenha vontade de desistir, que o motive a continuar e vencer será um grande diferencial para o sucesso e a conquista de uma aprendizagem plena.  Mãos à obra!