O Brasil é considerado o 13° maior produtor de ciência no mundo, com um número muito grande de publicações de artigos em revistas internacionais, e quase um terço das publicações é da USP. Mesmo ostentando posição de destaque na produção científica, o Brasil não possui tecnologia para produzir o que estuda. Segundo o Global Innovation Index, órgão que faz medições sobre a capacidade de inovação dos países, o Brasil está na 62ª posição.

Quem explica a situação ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição é o professor Paulo Feldmann, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. Segundo ele, para produzir inovações, é necessário haver empresas locais, principalmente na área industrial, e o Brasil tem um enorme déficit nesse quesito. “Quando verificamos a lista das 2 mil maiores e mais importantes empresas do mundo, há apenas 19 empresas brasileiras, menos de 1%”, afirma. Essas 19 empresas são majoritariamente do setor bancário ou de supermercado, por exemplo, mas quem produz inovação é o setor da indústria. Sem investimento em tecnologia e sem incentivos governamentais para as indústrias, o Brasil não consegue produzir insumos para as vacinas.

A pandemia mostrou ao mundo que existe uma dependência de todos os países do mundo em relação à China em vários segmentos, como no setor farmacêutico. Quase todos os países dependem de insumos chineses para a produção de imunizantes. As nações que desenvolvem suas próprias vacinas não conseguem manter os custos de produção em níveis sustentáveis como os chineses. “Esse é o grande problema que existe hoje no nosso país: sabemos desenvolver a vacina e é muito provável que brevemente ela estará disponível, uma vacina brasileira, mas a dificuldade é como fazer com que essa vacina chegue ao público de uma forma competitiva”, explica o professor. 

Mesmo que o Brasil seja referência mundial em campanhas de vacinação, ainda não contamos com indústrias de apoio para o desenvolvimento de insumos em massa para todo o país. A promessa é que instituições importantes, como o Instituto Butantan, comecem a produzir os próprios insumos ainda em 2021, mas, por enquanto, o processo de vacinação no Brasil sofre atrasos esporádicos de até 30 dias por falta de imunizante da China, que por vezes esteve sobrecarregada nas exportações de insumos.