A cereja-do-mato ou cereja-do-rio-grande, como também é conhecida, é uma fruta nativa do Sul do Brasil e especialmente abundante na região de Curitibanos. Apesar de muito saborosa, ótima para comer pura ou em geleias, ela ainda é pouco conhecida e explorada comercialmente. Foi com a intenção de investigar as propriedades da fruta e colaborar para sua valorização que um grupo interdisciplinar do Campus de Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) deu início ao projeto de pesquisa que, atualmente, dedica-se a investigar o potencial dos extratos de Eugenia involucrata – nome científico do pé de cereja-do-mato – para combater tumores.

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O estudo, que começou em 2016, envolveu a avaliação da composição e das propriedades antioxidantes de diferentes partes da planta – fruta, folhas e sementes – e confirmou que ela pode ser uma importante fonte de compostos bioativos (substâncias que não são essenciais para o funcionamento do corpo, mas trazem diversos benefícios para a saúde). O que chama mais atenção, contudo, são os experimentos relacionados à capacidade antitumoral da cerejeira. O trabalho, alerta a professora do Departamento de Agricultura, Biodiversidade e Florestas Evelyn Winter, ainda está em fase inicial – passou apenas por testes com culturas de células em laboratório –, mas os resultados preliminares são promissores. 

Os extratos da planta foram aplicados em células de câncer de pâncreas, um tipo bastante agressivo e com alta taxa de mortalidade, e os resultados foram comparados com o quimioterápico gencitabina, utilizado no tratamento da doença. Observou-se que o extrato de cerejeira matou mais células tumorais e foi menos tóxico para as células saudáveis que o medicamento padrão. Ele também diminuiu a multiplicação do tumor e, consequentemente, seu crescimento e propagação – o que pode indicar a capacidade de evitar a metástase do câncer. 

Uma curiosidade é que cada parte da planta apresentou propriedades distintas. “Foi interessante que o estudo foi feito tanto em folhas da planta quanto nos frutos e sementes. Para a atividade antitumoral, a folha foi mais interessante, e, para atividade antioxidante, foram os frutos e a semente”, comenta Evelyn.

Ainda são necessários muitos testes para comprovar o potencial antitumoral da cerejeira-do-mato. “A gente nunca deve basear uma decisão clínica apenas em um resultado in vitro [em culturas de células], porque tem muitas etapas ainda até chegar no in vivo [estudos em animais]”, enfatiza a professora. Os testes com animais, entretanto, não têm previsão para começar. Um dos empecilhos que o grupo enfrenta é a falta de locais para criação de ratos e camundongos e de laboratórios apropriados para esse tipo de experimento no Campus de Curitibanos.

Atualmente, a equipe se dedica à análise química dos componentes da planta, com o objetivo de identificar quais deles são os responsáveis pela atividade antitumoral. Afinal, esclarece Evelyn, o extrato “tem uma mistura de várias substâncias, e nós precisamos conhecer exatamente o que tem ali. Às vezes, o extrato é mais potente do que o composto isolado, por isso essa análise é importante”.

O trabalho fez parte da pesquisa de mestrado de Julheli Rohrbeck Girardelo, cursado no Programa de Pós-Graduação em Farmácia da UFSC. Também participam do estudo os professores Greicy Conterato, responsável pela avaliação das atividades antioxidantes, e Cristian Soldi, que conduziu a produção dos extratos, além de alunos de graduação do Campus de Curitibanos da UFSC.