O governo adotou como mantra exigir financiamentos para preservação da Amazônia. Parte do mantra invoca futuros mercados de carbono. À parte do embaralhamento de palavras e conceitos que o ministro Salles costuma proferir, existe um debate sério sobre os dois mecanismos de mercado previstos no Acordo de Paris acontecendo no país.

Ronaldo Seroa da Motta, da UERJ, publicou um trabalho analisando o que o país precisa fazer para voltar a ser um dos principais pólos de atração de recursos financeiros ligados ao carbono. Além de parar de bloquear negociações e aceitar os famosos ajustes correspondentes e aderir a princípios internacionais de integridade ambiental, Motta recomenda, dentre outras, a criação de um mercado interno de carbono “que serviria de referência de preços e opções de mitigação para orientar a participação do país nos instrumentos de mercado internacionais”.

Um dos dois mecanismos do Acordo trata de transferências entre países, algo que não existia no Protocolo de Kyoto. Para tanto, será preciso “organizar […] um conjunto de ações e atividades de redução e remoção de emissões para formarem um ITMO (sigla em inglês de Resultados de Mitigação Internacionalmente Transferidos) brasileiro […], acomodando opções florestais em um sistema jurisdicional de REDD+ em conjunto com (outras opções de mitigação)”.

Na semana passada, o Banco Popular da China organizou um evento sobre os mercados de carbono no qual a diretora executiva do FMI, Kristalina Georgieva, defendeu que cada vez mais, o mundo entende que a precificação das emissões é a maneira mais eficiente e custo-efetiva de reduzi-las.

Com a parafernália de novas tecnologias para remover e armazenar CO2, e gente do calibre de Bill Gates colocando milhões de dólares em seu desenvolvimento, o pessoal do Ecosystem Marketplace as contrapõem a Soluções Baseadas na Natureza. O argumento central é que essas “soluções tecnológicas contribuem pouco para uma transição para sociedades sustentáveis. De fato, a promessa de uma futura correção tecnológica corre o risco de travar os atuais sistemas econômicos insustentáveis.” A maior crítica às NBS (sigla em inglês) parece ser a da permanência – como garantir que o carbono removido da atmosfera permaneça tempo o suficiente para afetar o aquecimento global. A resposta é quase pueril – enquanto árvores morrem, a Terra mantém florestas há milhões de anos. Eles concluem advogando que os mercados de carbono precisam incentivar essas soluções: “A natureza tem uma tendência de ficar de fora dos mercados de carbono e só agora está começando a se apressar e conseguir entrar no clube das soluções de carbono ‘investíveis’. A natureza não pode ser posta para fora de novo e ter que encontrar outras maneiras de atrair investimentos – estamos sem tempo, e pode não haver uma próxima vez”.

A FAO e a TNC publicaram um trabalho relevante sobre Soluções Baseadas na Natureza na agricultura. As organizações descrevem soluções que englobam conservação, clima e a melhoria da vida da população local, ao mesmo tempo em que mantém ou melhoram a produtividade saudável das lavouras. Na lista de benefícios estão saúde de solos, remoções de CO2 (no solo e em florestas), quantidade e qualidade das águas e ajudar a garantir a segurança alimentar.