Os decretos de flexibilização e retomada de serviços contribuíram para o agravamento da pandemia de Covid-19 em Santa Catarina. A conclusão é de um estudo desenvolvido pela estudante de Medicina da UFSC, Helena Hughes, com orientação da professora do Departamento de Saúde Pública Ana Luiza Curi Hallal. A pesquisa, intitulada Evolução da Covid-19 no Sul do Brasil: Decretos e Indicadores no Estado de Santa Catarina, cruza os dados epidemiológicos do estado entre 25 de fevereiro e 25 de agosto de 2020 e os coloca em contraste com decretos assinados pelo governo como medida de prevenção ou afrouxamento dos cuidados ao longo do mesmo período.

Segundo Helena, a motivação para analisar os dados veio da oportunidade de unir duas áreas de conhecimento importantes à saúde pública e com pouco histórico de produção interdisciplinar: o Direito e a Medicina. Como estudou três anos de Direito e por sugestão da professora, ela decidiu colocar os indicadores em diálogo com a produção dos documentos públicos que balizaram a forma como o Governo do Estado lidava com a pandemia.

Reprodução de dados coletados no estudo; clique para ampliar

No período analisado no estudo, houve 179.443 casos confirmados laboratorialmente de Covid-19 em residentes do estado, com 2.183 óbitos até o final da semana epidemiológica 35 de 2020. O artigo aponta que os meses de julho e agosto tiveram o maior número de casos novos e de óbitos no período, respectivamente: foram 87.143 novos casos em julho e 947 mortes em agosto. Já a taxa de incidência passou de 20,4 casos a cada 100 mil habitantes, em março, para 1.201,6 em julho e 642,2 em agosto. Em agosto, houve a maior taxa de mortalidade do período, com 13,1 a cada 100 mil habitantes.

A pesquisadora aponta que se surpreendeu com o momento epidemiológico em que as flexibilizações ocorreram e com a demora para a implementação de novas restrições. “Muitos de nós escutamos que Santa Catarina foi exemplo nacional no enfrentamento à pandemia de Covid-19 e perceber esse tipo de disparidade entre o momento epidemiológico e a decisão política foi um choque”, argumenta. Entre os dias 11 de abril e 1 de junho de 2020, por exemplo, três decretos de flexibilização foram emitidos concomitantemente a um crescimento de 1.804,8% no número absoluto de novos casos. “Após isso, nós só fomos ter uma nova restrição em meados de julho, quando o número de novos casos ao dia já ultrapassava o marco de 4 mil”, pontua.

Amplie para visualizar o gráfico; imagem cruza decretos e número de óbitos na linha do tempo

De acordo com a professora, em junho de 2020, três meses após o início da pandemia, o Governo do Estado já havia flexibilizado praticamente todos os agrupamentos de atividades. “Após analisar, podemos concluir que os decretos que flexibilizaram as medidas de distanciamento social foram emitidos precocemente e em desacordo com o momento epidemiológico”, reforça.

No gráfico contendo o número de óbitos do período analisado pelas pesquisadoras, por exemplo, é possível identificar que os decretos restritivos iniciais ocorreram quando não havia mortes por Covid-19 no estado. Em contrapartida, a partir da semana epidemiológica de 2 de junho, em que eram permitidos cultos, comércios não essenciais, ensino presencial e permanência em parques e praças, por exemplo, a curva de mortes não parava de subir. “Eu acredito que tamanho desacordo entre a informação que os indicadores epidemiológicos traziam e os decretos estaduais emitidos para contenção da pandemia não era previsto por nenhuma de nós. Principalmente considerando que o estado teve acesso a esses mesmos dados, atualizados diariamente e com boletins semanais disponíveis”, aponta Helena.

O estudo desenvolvido por Helena terá continuidade, agora com foco nas variáveis da segunda onda de Covid-19 em Santa Catarina. “Além disso, idealmente, nós gostaríamos de ampliar o projeto e utilizar essa metodologia que nós desenvolvemos em um trabalho nacional”. A ideia seria reproduzir a pesquisa com dados de todos os estados do Brasil, realizando uma comparação e verificando qual estratégia produziu melhores resultados. “Com um banco de dados dessa magnitude, seria necessário a colaboração de todos os estados e uma logística muito maior, mas esse trabalho poderia facilitar o desenvolvimento de uma estratégia de resposta nacional, ou estadual, que aceleraria a resposta do Estado no futuro frente a situações de emergência como essa”, destaca.

A professora Ana reforça o papel do estudo para a formação de Helena, que está no terceiro ano da faculdade, mas já defendeu seu trabalho de conclusão – o que, no curso de Medicina da UFSC, pode ser feito antes do término das disciplinas. “Não somente para os médicos, mas para todos os profissionais da saúde, é importante que eles saibam interpretar os indicadores epidemiológicos que permitem fazer o diagnóstico da situação de saúde de uma localidade, bem como saibam relacionar os indicadores com a políticas públicas para o enfrentamento das doenças. Mais do que nunca precisamos treinar os profissionais da saúde a basear suas práticas nas melhores evidências científicas disponíveis”, afirma.

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