Um estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Nutrição (PPGN), no âmbito do Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições (Nupre) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), teve como objetivo avaliar as informações sobre os açúcares na rotulagem de alimentos industrializados comercializados no Brasil e investigar formatos de rotulagem que sejam compreensíveis e auxiliem consumidores brasileiros nas suas escolhas alimentares.

Realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a pesquisa é resultado da tese de doutorado defendida pela nutricionista Tailane Scapin, em maio deste ano, sob orientação da professora Rossana Pacheco da Costa Proença e coorientação da professora Ana Carolina Fernandes. O estudo ainda foi orientado pelos professores Bruce Neal e Simone Pettigrew, do The George Institute for Global Health, associado à University of New South Wales em Sidney, Austrália, onde a Tailane realizou estágio de doutorado sanduíche entre agosto de 2019 e março de 2021.

“O interesse pelo tema surgiu durante a realização do meu mestrado, quando percebemos que, embora houvesse um vasto uso de açúcares nos alimentos industrializados, a legislação brasileira de rotulagem de alimentos não cumpria o seu papel em informar os consumidores sobre esses açúcares. Junto a isso, o Nupre foi convidado a compor os grupos de trabalho de discussão da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] para melhorias na rotulagem de alimentos, incluindo a declaração dos açúcares”, informou Tailane, que após a defesa da tese foi selecionada para um pós-doutorado na Austrália.

Etapas da pesquisa

Devido aos efeitos adversos à saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda limitar o consumo de açúcares para menos de 10% das calorias diárias – o que representa 50g para uma dieta padrão de 2.000 kcal. Os açúcares são frequentemente adicionados em alimentos industrializados, tornando esses alimentos uma das principais fontes de consumo de população mundial. No Brasil, a legislação de rotulagem de alimentos em vigor não prevê a declaração quantitativa dos açúcares na informação nutricional dos rótulos, sendo a lista de ingredientes a única forma de identificação da adição de açúcares nos alimentos industrializados. Entretanto, os fabricantes de alimentos utilizam diferentes tipos de açúcares em seus produtos, o que dificulta a identificação desses componentes. Neste estudo, quatro etapas foram realizadas investigando questões relacionadas aos açúcares e à rotulagem de alimentos.

Na primeira etapa, por meio do desenvolvimento de um método, foi possível quantificar o conteúdo de açúcares adicionados em 4.805 alimentos disponíveis para a venda no maior supermercado de Florianópolis. Os resultados demonstraram o vasto uso de açúcares nesses produtos. A segunda etapa envolveu uma revisão de literatura para identificar quais formatos de rotulagem de açúcares eram mais facilmente entendidos pelos consumidores e, também, estimularam a escolha de alimentos com menos açúcares. Foi possível constatar que os consumidores têm mais facilidade em entender as informações de açúcares e de escolher alimentos com menor teor de açúcares quando formatos de rotulagem mais interpretativos eram utilizados. Por exemplo, formatos com símbolo de alertas e indicação de “alto em açúcar” foram mais eficazes.

A terceira fase envolveu a realização de grupos de discussão (grupos focais) com estudantes universitários residentes na região da Grande Florianópolis para buscar as percepções desse público sobre açúcares e rotulagem de alimentos. Os resultados demonstraram desconhecimento dos participantes sobre os tipos de açúcares, os efeitos à saúde, as recomendação de quanto consumir por dia, bem como discutiram que o atual formato de rotulagem de alimentos no Brasil não é considerado útil para auxiliar nas escolhas alimentares quando o assunto é açúcar. Os participantes também sugeriram como eles gostariam que os rótulos apresentassem as informações sobre os açúcares.

A última etapa envolveu uma pesquisa on-line com 1.277 consumidores adultos de diferentes regiões do Brasil. Os participantes viram diferentes formatos de rotulagem de açúcares e responderam a questões. Os resultados demonstraram que os participantes conseguiram, corretamente, identificar produtos com mais ou menos açúcar quando o conteúdo de açúcar era declarado na tabela de informação nutricional. Além disso, participantes que viram símbolos de alertas escolheram produtos com menos açúcar em uma tarefa de escolha de alimentos. “A lista de ingrediente, embora muitas vezes pequena no rótulo, é uma forma primordial de informações para os consumidores. É a partir desta lista que os consumidores são capazes de identificar os ingredientes que são açúcares (ex. sacarose, maltodextrina, glucose, xarope de milho). Além disso, quando mais no começo da lista esses ingredientes são declarados, maior é a quantidade utilizada – uma vez que os ingredientes são listados em ordem decrescente”, salientou Tailane.

Resultados serviram de subsídio para mudanças

Com base nesses resultados, o estudo evidencia a vasta adição de açúcares em alimentos industrializados comercializados no Brasil, o que pode contribuir com o excesso no consumo desses açúcares para além do recomendado pela OMS. Além disso, ficou evidente a relevância na declaração do conteúdo de açúcares nos rótulos de alimentos embalados, bem como a interpretação dessa informação para que os consumidores. Para a pesquisadora, os resultados da tese apresentam importância científica e prática:

“Científica no sentido de auxiliar nas discussões sobre formatos de rotulagem de açúcares no mundo, além de eu ter desenvolvido um método válido e eficaz para estimar o conteúdo de açúcares de adição de alimentos industrializados utilizando apenas as informações presentes nos rótulos. Prática no que tangue três principais pontos. O primeiro é a prática do profissional nutricionista, ao poder auxiliar seus pacientes a mais facilmente identificar os açúcares nos rótulos de alimentos. O segundo ponto é que os resultados encontrados podem incentivar as empresas de alimentos a reformularem os seus produtos para redução na quantidade de açúcar utilizada. Finalmente, o último ponto (e mais importante) é que os resultados da minha tese serviram como subsídio científico para mudanças na rotulagem de alimentos no Brasil, já que foram considerados pela Anvisa durante as discussões de legislação”, avaliou Tailane Scapin.

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