Artigo publicado na revista Lancet Oncology confirma a eficácia do tratamento menos agressivo contra o câncer na placenta. O estudo foi liderado pelo pesquisador Antonio Rodrigues Braga Neto, que coordena estudos sobre a doença trofoblástica gestacional (DTG) na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no Hospital Universitário da Universidade Federal Fluminense (UFF). O trabalho, produzido em parceria com o Imperial College of London e a Harvard Medical School, foi publicado na última sexta-feira, 25 de junho.

“A partir de relatos de mulheres que se recusaram a realizar o tratamento mais agressivo, passamos a investigar alternativas para o tratamento do câncer da placenta e, por meio desse estudo, confirmamos que é possível utilizar apenas um medicamento para as sessões de quimioterapia em casos de escore de risco da Figo [Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia] 5 e 6”, explica Braga. De acordo com o pesquisador, isso significa uma diminuição dos efeitos colaterais como enjôos e quedas de cabelo e até mesmo o desenvolvimento de tumores na vida futura dessas pacientes. O tocoginecologista acrescenta que a DTG é plenamente curável, mesmo nos casos mais graves, desde que seja feito o diagnóstico precoce e o tratamento ocorra em Centros de Referência.

A DTG é uma doença rara. A cada ano surgem 20 mil novos casos ao redor do globo e, por esse motivo, torna-se difícil realizar estudos randomizados de pesquisa clínica. O trabalho recém publicado consistiu em um estudo retrospectivo que incluiu pacientes atendidas nos três centros de referência entre 1964 a 2018: os hospitais escola do Imperial College of London (Charing Cross Hospital); da Harvard Medical School (Brigham and Women’s Hospital) e da UFRJ (Maternidade Escola).

O pesquisador explica que a gestação nesses casos não passa de 12 semanas e, em grande parte dos casos, a remoção do feto em formação é suficiente para eliminar a doença. As demais pacientes precisarão de quimioterapia. E apenas nos casos de metástase, coriocarcinoma, e níveis elevados de gonadotrofina coriônica humana (hCG – marcador tumoral dessa doença) fica configurado casos de tumores mais agressivos, em que a quimioterapia com mais de um medicamento pode ser necessária.

Em uma primeira etapa foram coletados 5025 registros de pacientes com o câncer da placenta e a partir daí verificou-se a gravidade da doença em uma escala que vai de 0-6, com as atualizações necessárias da classificação, modificada ao longo das últimas décadas. Do total, apenas 431 dos casos eram de maior gravidade (escore da FIGO 5 ou 6). Entre estas pacientes, que tinham entre 26 e 40 anos, 80 foram submetidas ao tratamento mais agressivo, com mais de um medicamento. Neste grupo, houve uma morte. Enquanto entre as 351 que foram atendidas com apenas um medicamento, houve duas mortes.

O próximo passo dos pesquisadores será enviar cartas às sociedades médicas da área para confirmar a efetividade do tratamento menos agressivo, procedimentos que já estão sendo adotados nas maternidades-escola da UFRJ e no Hospital Universitário da UFF. Ao longo dos anos, a FAPERJ tem apoiado as pesquisas do Núcleo de Estudos em Doenças Trofoblásticas, coordenado pelo professor Braga, que, para essa pesquisa, contou também com a Bolsa de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Credito: Faperj