Artigo publicado nesta quarta-feira, 7 de julho, na revista Cadernos de Saúde Pública – revista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz) – indica que o número de óbitos na Região Norte do Brasil seria maior caso a expectativa de vida na região fosse mais alta. O estudo foi coordenado pela epidemiologista Gulnar Azevedo Aguiar, professora no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj). Também assinam o trabalho os pesquisadores Beatriz Jardim, do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e Paulo Lotufo, do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).

A partir dos dados coletados no Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe), do Ministério da Saúde, no período entre março de 2020 a janeiro de 2021, os pesquisadores padronizaram a taxa de mortalidade por habitantes de acordo com a faixa etária das capitais e Distrito Federal. Como resultado, as capitais do Sul e Sudeste tiveram suas taxas reduzidas, enquanto as da Região Norte aumentaram em mais de 90%, com exceção de Palmas. A capital do Tocantins registrou a segunda menor média, de 70/100 mil habitantes. “Quando se compara populações é preciso identificar as semelhanças e diferenças. A Região Norte tem a menor proporção de idosos do País, enquanto a cidade do Rio tem a maior. Se a estrutura etária das populações destas duas capitais fossem iguais, o número de mortes na Região Norte seria muito maior”, explica Gulnar Azevedo e Silva.

Em seu trabalho, os pesquisadores destacam a mudança entre as taxas da cidade de Manaus e Rio de Janeiro, cidades que, em dados brutos, registraram a mesma taxa de mortalidade de 253 mortes a cada 100 mil habitantes. Após a padronização, a média de Manaus saltou para 412/100 mil, enquanto o Rio de Janeiro registrou 196/ 100 mil. Ainda assim, a média fluminense é a mais alta fora da Região Norte. “A proporção de habitantes maiores de 60 anos é de 8,4% em Manaus, 16,1% em São Paulo e 18,9% no Rio de Janeiro. Em contraste, a proporção de óbitos pela Covid-19 em menores de 60 anos em Manaus foi de 33%, e, no Rio de Janeiro e São Paulo, 22%”, escrevem os autores.

A prevalência de determinadas doenças e as desigualdades sociais por regiões também foram observadas nas pesquisas realizadas por Gulnar e equipe relacionadas à prevalência de câncer, trabalho para o qual conta com apoio do programa Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Em artigo publicado em 2020, também em coautoria com Beatriz Jardim e outros colaboradores, a pesquisadora analisou dados de quatro décadas sobre a mortalidade por câncer no País.

No período, a proporção de câncer aumentou para ambos os sexos, mas houve queda da mortalidade para câncer de estômago – menos para a Região Norte e interior do Nordeste. Este tipo de câncer está associado à má nutrição. O interior da Região Norte foi a única região a registrar aumento na mortalidade por câncer de colo de útero. Em relação ao câncer de mama e próstata, apesar da queda nas capitais, registraram aumento no interior das regiões Norte e Nordeste.

A pesquisadora também se dedica a pesquisar e orientar estudos sobre as desigualdades no acesso ao tratamento do câncer de mama e colo de útero no estado do Rio de Janeiro. Em artigo publicado em 2019, em trabalho liderado por Jeane Glaucia Tomazelli no município do Rio de Janeiro, foi constatado que o tempo médio de espera entre realização da mamografia e o início do tratamento é de 206 dias, aumentando com a faixa etária. “O ideal seria que mulheres com resultado alterado de mamografia tivessem acesso ao diagnóstico e tratamento entre oportuno”, diz Gulnar e completa: “Nós não precisaríamos ver tanta diferença entre as regiões e nem entre as mulheres que residem nas capitais e no interior de cada região. Não precisaríamos passar por falta de oxigênio nos hospitais, por transferência de pacientes da região Norte para outros Estados. Tudo isso poderia ter sido muito evitado com financiamento adequado do SUS [Sistema Único de Saúde]”.

Credito: Faperj