Era uma vez um podre homem e uma pobre mulher que só tinham um pequeno campo: semearam linho que brotou á maravilha e ficou tão bonito que nunca se tinha visto igual. Quando amadureceu a boa gente o arrancou, curtiu e no prado a secar.

Estavam contentes com a bela colheita dar-lhes um bem estar a vendendo; mas veio um grande pé de vento Nourouâs (Noroeste) que carregou o linho, jogou-o para cima das arvores e o espalhou pelo mar. Quando o homem viu sua colheita perdida começou a praguejar contra o vento, tomou seu cacete e pois em caminho para ir matar o maldito Nourouâs, que tinha estragado seu linho.

Levou consigo comida para dois ou três dias, mas a viagem foi mais longa do que ele pensava e esteve quase a morrer de fome por estes caminhos. Uma tarde chegou a um hotel e disse á hoteleira: Eu não tenho um vintem, por esmola dai-me um pedaço de pão e deixai-me dormir num canto da estrebaria.

O pobre homem teve pão para comer e um feixe de palha para deitar-se; na manhã seguinte agradeceu á hoteleira e disse-lhe: Não sabeis me dizer onde mora Norouâs? Sim, responder ela: Vinde comigo. O conduziu ao pé de uma montanha e lhe disse: É lá encima que ele mora.

O pobre homem começou a subir a montanha onde moravam os ventos e encontrou Sourouâs (Sudoéste) que estava de quarto. Es tu, diz lhe ele. Que te chamas Norouâs? Não, eu sou Sourouâs. Onde está este patífe do Norouâs que me roubou meu bonito linho? eu trouxe meu cacete especialmente para mata-lo.

Não fala alto, homem, respondeu Sourouâs: si ele te ouvisse te carregava nos ares como a um fiapo. Veremos, diz o homem apertando seu cacete. Eis Norouâs que se aproxima soprando seu cacete: A! mizeravel Norouâs! exclama o pobre homem: foste tu que roubaste minha bela peça de linho!

Cala a boca, ou eu te carrego, respondeu a voz de Norouâs. Tens que entregar-me, imprestavel? diz-lhe o vento. Mas o pobre homem não cessava de gritar: Norouâs, entrega meu linho! Norouâs. Entrega meu linho! Pois bem, diz Norouâs, para ficarmos em paz, aqui tens um guardanapo. Com minha peça de linho, responde um cento disto.

Norouâs, não teriam nunca a virtude deste; quando disseres “guardanapo abre-te” ele te dará a mas bela mesa servida como nunca viste. O pobre homem desse a montanha depois parou para experimentar seu guardanapo, dizendo-lhe: “guardanapo abre-te” e logo eis uma mesa posta com pão, carne e vinho que se apresenta em sua frente. ele comeu com apetite voraz, depois, ao anoitecer, entrou no hotel onde havia dormido.

Norouâs! perguntou-lhe a hoteleira; pagou-te bem? Ohlé! respondeu ele; esta noite não preciso que me de pão; o guardanapo de Norouâs me fornecerá bastante para todos: “Guardanapo abre-te” diz ele, tirando-o do bolso. E eis uma soberba mesa que se levanta por si mesma, que cobre-se melhor servido.

Em vez de dar ao pobre homem um feixe de palhar em um canto da estrebaria, a hoteleira o agasalhou em boa cama sobre um colchão de penas; ele não custou adormir, e quando ele roncava como um felizardo, ela tirou-lhe o guardanapo e trocou por um outro muito semelhante. Ele votou para a casa e mal sua mulher o viu, perguntou-lhe:

Norouâs pagou-te bem? Sim, olha que bonito guardanapo. velho bobo, exclamou ela, farias melhor tomando outra cousa; na nossa peça de linho tinhamos mais de duzentos guardanapos, e te contentaste com um só! Não grita, diz o bom homem, vais ver para quanto ele serve “guardanapo abre-te” disse ele.

O guardanapo quieto a mesa servida não apareceu. O homem gritou ainda três ou quarto vezes “guardanapo abre-te” mas não viu aparecer nada, e sua mulher, começou a caçoar dele. Norouâs fez-me cair no laço, diz ele; mas desta vez eu o mato.

Tomou o cacete e poz-se a caminho; foi dormi no mesmo hotel e disse á hoteleira: Eu vou matar Norouâs; o canalha deu-me um guardanapo que só era encantado para duas vezes. Não deixa de passar por aqui na volta, disse-lhe a hoteleira.

De manhã, bem cedo, ele pois o pé na estrada e. quando chegou ao alto da montanha começoua gritar: Grande patife do Norouâs, o guardanapo que me deste só era encantado para duas vezes. Norouâs, entrega-me meu linho! Não grita tanto, homem, ou eu te carrego nos ares como a um fiapo.

Norouâs, dá-me meu linho! ou eu te mato. aqui está diz Norouâs, um burro; quando tu disseres “Burro faz-me ouro”, tu o terás em abundancia. O pobre homem deceu a montanha com seu burro, e embaixo disse: “burro faz-me ouro” logo o burro levantou o rabo e deixou cair na estrada rolos de ouro. O bom homem encheu os bolsos e lá se foi para o hotel.

O lá! perguntou-lhe a hoteleira, Norouâs pagou-te bem? Sim respondeu ele; deu-me um burro, vós ides ver que virtude tem: “Burro, diz ele, faz-me ouro”. Logo o burro levantou o rabo o deixou cair moedas de ouro, grandes e pequenas, que rolavam no chão.

Depois que o homem recolheu o burro á estrebaria, deitaram-no em uma cama ainda melhor que dantes e, em quanto ele dormia, a hoteleira trocou o burro por um outro muito parecido. Logo que o bom do homem chegou em casa, a mulher lhe disse: E Norouâs pagou-te bem? Sim, respondeu ele: abre teu avental embaixo do rabo do burro, “burro faz-me ouro” ordenou ele.

O burro não se mecheu; o homem repetiu ainda: burro faz-me ouro; nada caiu no avental e ele ficou tão furioso que tomou o cacete para matar o burro. Velho maluco, diz-lhe a mulher, é a segunda vez que te deixas enganar. A! Norouâs, exclama o pobre homem, desta vez eu te mato. Tomou o cacete e, quando chegou ao hotel, disse:

Norouâs me enganou ainda, desta vez porém, eu o matarei. não deixa de passar por aqui na volta, respondeu-lhe a hoteleira. Na manhã seguinte, acordou bem cedo, subiu a montanha e disse a norouâs: foste tu, grande bandalho, que me deste um burro que só tinha o encanto para duas vezes, Norouâs, dá-me meu linho!

A! responde norouâs, tu, pelo que vejo queres levar tudo o que eu possuo. Norouâs, entrega meu linho ou eu te mato. Eu vou carregar-te como a um fiapo, respondeu o vento, que pois a soprar. Mas o pobre homem gritava: Norouâs, dá-me meu linho! E Norouâs lhe diz; Aqui está, meu velho, um cacete; quando tu disseres; “cacete, desdobra-te”, ele começará a dar pancadas; e quando quízeres fazer parar, diras, “ora pro nobis”.

De caminho, passa pelo hotel onde pousaste foi lá que te roubaram o guardanapo e o burro. Desta vez o homem ficou mesmo contente; logo que saiu quiz experimentar a virtude do seu cacete e disse-lhe; “cacete desdobra-te”. Logo o cacete escapou-lhe das mãos e pois a fazer voltas no ar e a dar pancadas tão fortes que ele, não só não achava onde esconder-se, como ainda se esqueceu do que devia fazer para para-o. Afinal lembrou-se de dizer: “Ora pro nobis” e o cacete voltou logo para suas mãos.

chegando ao hotel a hoteleira perguntou-lhe: E Norouâs pagou-te bem desta vez? Sim, respondeu ele; aqui está um cacete que dá em todos aquele que eu quero. entrega-me meu guardanapo e meu burro que me roubastes. Eu não te roubei nada, diz a hoteleira; si continuar a gritar eu mando chamar os policias.

Meu cacete desdobra-te, gritou o homem. logo o cacete começou a dançar nos ares, dava pancada na hoteleira, nos criados, quebrava copos, terrinas e pratos, pancada velhas uma atraz da outra. A! meu velho, gritou a hoteleira, para, para o cacete, nós entregaremos teu guardanapo e teu burro.

O bom homem gritou: “cacete pro nobis” mas o cacete estava tão entusiasmado que não cessou as pancadas senão quando o dono disse pela segunda vez: “Ora pro nobis” E foi-se com seu burro e seu guardanapo; quando chegou em casa a mulher perguntou-lhe: E Norouâs, pagou-te bem? Sim, respondeu ele, vais ver tudo o que ele me deu; abre teu avental; “burro dá-me ouro”, gritou ele.

O ouro caiu no avental da boa mulher, que ficou espantada, porque nunca tinha visto tanta moeda em sua vida. ele estendeu o guardanapo na mesa cobriu-se de pratos e licores. depois que eles jantaram bem, o bom velho disse: eu tenho ainda um cacete que dá pancadas em quem eu quero, podia te mostrar, e ele já ajudou-me bem, mas eu não mostro como se faz, porque pode se queiras experimenta-o em mim.

Com o dinheiro que o burro, dava o bom homem comprou navio e tornou-se armador. mas a gente dizia que ele era um grande ladrão e que para ter ficado tão rico em pouco tempo devia ter roubado e assassinado alguém. A justiça foi chamada e ele condenado a ser degolado.

O dia em que devia subir ao cadafalso estava a praça cheia de gente para ver cortarem-lhe o pescoço. O pobre home disse: Já que se faz a vontade dos condenados á morte, eu desejava que me trouxessem meu bordão de velho, para que eu o visse ainda uma vez antes de morrer. Foram buscar o cacete do bom velho; ele o pegou e disse:

Vêdes este cacete? foi ele que me deu toda minha riqueza. meu cacete desdobra-te. E o cacete pois logo carrasco, atirou com os policias no chão, derrubou o cadafalso e começou a dar pancada naquele povo todo que tinha vindo ver a execução. De todos os lados só se ouvia grifar: A! bom homem, para, para o cacete, tu serás perdoado.

Quando ele estava certo de que não o matariam mais, gritou “Ora pro nobis”. Mas ocacete continuou a dar pancada e só parou quando o velho gritou a terceira vez “ora pro nobis”. O bom homem voltou socegado para casa, apoiado no seu bordão e viveu feliz até fim de seus dias.

“Paul Sébillot”

História Publicada no A Carochinha, em Florianópolis, 14 de novembro de 1914

Acesso da Biblioteca Pública de santa Catarina.

Nessa História em conto Não mudamos a escrita, é a mesma escrita em 1914.