Rodrigo Santos

Na  cadeira de observação, a boreste, contemplo os últimos raios de sol desaparecer no horizonte. É o fim do meu último dia de embarque. Dentre os muitos que já fiz, ao longo de quase 20 anos de profissão, acredito que este tenha sido o mais complicado de todos. Não pelos embarques em si, que aliás, foram um sucesso: avistamos golfinhos insanos cruzando a proa do navio em um mar calmo e estonteantemente azul; recebemos as primeiras baleias jubarte da temporada se deslocando apressadamente em direção ao nordeste rumo ao seu refúgio seguro de interações e descanso; tivemos a companhia, quase que diária, de aves marinhas incansáveis em suas atividades de alimentação; testamos uma nova tecnologia em binóculos para aferição de distância de mamíferos marinhos e; além de tudo isto, tivemos a oportunidade de conviver com pessoas maravilhosas, compartilhando experiências e trocando conhecimentos.

No entanto, este foi um projeto diferente, onde, experimentamos situações novas nunca antes vivida por qualquer profissional offshore. Todas elas, impostas pela terrível pandemia COVID-19 causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2. Quarentena pré-embarque, exames PCRs, uso de máscaras cirúrgicas, isolamento social até mesmo durante as refeições. Tudo isto soa estranho dentro de um navio, mas, para piorar, acompanhamos atônitos e impotentes, pelos sites de internet (nossa única janela com continente) os tristes números desta doença maldita. Aqui, longe de tudo e de todos, tivemos que nos “desligar” desta tragédia para poder seguir em frente e fazer nosso trabalho, mesmo sabendo que deixamos em terra nossos familiares, filhos, amigos, amores e pessoas queridas, entregues a própria sorte.

Apesar de tudo isso e, por causa de tudo isto, passei a valorizar mais ainda, cada dia que passo no mar, cada animal que vejo, cada nascer e por do sol que contemplo. Aqui, além de estar seguro longe deste vírus mortal, ainda posso contemplar a beleza da vida, mesmo sabendo e, me solidarizando, com toda dor e sofrimento pelo qual muitos estão passando. Estar no mar, em tempos de pandemia de COVID-19 é, além de um privilégio, uma forma de contemplar a beleza da vida e, renovar as esperanças numa CURA possível.

RODRIGO SANTOS é biólogo marinho e fotógrafo de natureza. Atua a mais de 15 anos em projetos de monitoramento ambiental de espécies marinhas. Atualmente é Coordenador de Projetos Ambientais na NAV Oceanografia Ambiental, Consultor Técnico da ADSL Câmeras e Fundador da BIOEMPATIA Cursos e Conteúdos Digitais.